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Leite e pinga



"Óia como bebe
Esse povo do Brasil.
Inxuga um garrafom
Mais depressa que funi."

(Adágio popular)


O mês de março de 2004 ficará marcado na história da publicidade brasileira pelo caso envolvendo duas marcas, Brahma e Nova Schin; duas empresas, Ambev/Interbrew e Schincariol; dois publicitários renomados, Nizan Guanaes e Eduardo Fischer; e um único garoto propaganda, Zeca Pagodinho.
 
No rastro de toda a celeuma causada pela mudança de lado do Zeca enquanto a partida ainda era jogada, veio a superexposição gratuita dos protagonistas na mídia. A reboque, debates sobre dinheiro, quebra de contrato e ética. Debates travados em mesas de bar, regados a cerveja e possivelmente concluídos em uma pizzaria.
 
Debates que não se propuseram a abordar a questão do alcoolismo entre os jovens, sua participação nos índices de acidentes automobilísticos, seu custo social pelas vidas ceifadas e pela esperança abreviada.
 
Nossos jovens começam a beber cada vez mais cedo, influenciados pela publicidade, que projeta uma imagem adulta idealizada, e pela facilidade em adquirir bebida, face à ausência de fiscalização e punição pela comercialização de produtos alcoólicos a menores, em que pese o rigor da legislação existente.
 
O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR), entidade respeitada em seu meio, editou em 1o de outubro de 2003 as novas resoluções para normas éticas de publicidade de bebidas alcoólicas. A primeira norma, denominada “Regra geral”, diz: “Deverá ser estruturada com a finalidade precípua de difundir a marca do produto e suas características de maneira socialmente responsável. Assim, é aconselhável que o respectivo slogan não empregue apelo de consumo em seu enunciado”.
 
Curiosamente, o slogan de uma das empresas supracitadas é “Experimenta”, no imperativo. Não seria isso apelo ao consumo? Responsabilidade social não envolve também incentivar práticas éticas?
 
Ainda na faculdade, estudando “Técnicas de comunicação com o mercado”, meu então e eterno mestre Marcus Vinícius definiu o que é uma agência de publicidade: “É uma empresa como outra qualquer com fins lucrativos onde se pratica ao extremo o capitalismo selvagem”. Sábias palavras...
 
Segundo dados do IBGE, ano base 2000, o Brasil apresenta consumo anual per capita equivalente a 66 litros de refrigerante, 49 de cerveja e apenas 30 litros de leite fluido (este número se eleva para 127 litros quando considerados todos os derivados do leite, porém ainda muito abaixo dos 215 litros recomendados pela Organização Mundial da Saúde). Além destes quantitativos, os valores envolvidos na compra destes produtos nos chamam a atenção, conforme ilustra a tabela abaixo:
 
                                 Produto             Embalagem         Preço unitário           Preço/litro
  Refrigerante Coca-Cola                  2 litros               R$ 2,48              R$ 1,24
  Refrigerante Guaraná Antarctica                  2 litros               R$ 1,89              R$ 0,95
  Refrigerante Convenção (Tubaína)                  2 litros               R$ 1,35              R$ 0,68
  Cerveja Antarctica                  355 ml               R$ 0,79              R$ 2,23
  Leite Longa Vida Bom Cheff                   1 litro               R$ 1,05              R$ 1,05
  Aguardente de Cana Rosa                  970 ml               R$ 2,00              R$ 2,06
 
(Fonte: www.paodeacucar.com.br, em 05/04/2004)
 

A triste constatação da realidade sinaliza para um problema cultural, pois gastamos por ano mais com cerveja, seguido por refrigerante e, por último, leite.
 
Reflexo da política neoliberal que dogmatiza o “Estado mínimo”, vivemos em uma nação onde um litro de aguardente de cana, com teor alcoólico de 40 graus Gay Lussac, é tão acessível quanto um alimento fundamental como o leite.
 
Necessitamos de políticas públicas para educar os consumidores, restringir a publicidade, elevar os preços e limitar a venda de bebidas alcoólicas. Ou teremos que canalizar recursos para combater, além da cirrose, a osteoporose.



Data de publicação: 06/04/2004


Tom Coelho é educador, palestrante em temas sobre gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de nove livros. Contatos: atendimento@tomcoelho.com.br. Visite www.tomcoelho.com.br, www.setevidas.com.br e www.zeroacidente.com.br.




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